Um
belo dia, o pai de Maya se deparou com um curioso livro em um sebo. Folheando o
exemplar rasgado e desbotado, leu o título: O Guia de Popularidade para
Adolescentes de Betty Cornell. Foi escrito em 1951 por uma
ex-modelo e era repleto de dicas e conselhos sobre como melhorar o status
social, algumas eram bem ultrapassadas como “substitua a maquiagem dos olhos
por vaselina” ou “todas as garotas devem usar cinta”. Havia algo de especial
naquilo, então decidiu comprar.
Durante
anos abandonado no escritório do pai, o livro foi redescoberto pela mãe de Maya
e, não sabendo o que fazer com aquilo, entregou à filha. Sua primeira impressão
foi de quão bizarro era aquilo. Porém, sua mãe a desafiou a seguir os
conselhos de Betty durante os próximos meses do seu oitavo ano e documentar
tudo o que acontece. De cara disse não, mas folheando um pouco mais as páginas,
percebeu que nem tudo no livro era ultrapassado e havia ótimos conselhos a
serem seguidos.
Não foi nada fácil. Parte do experimento foi aderir à moda dos anos
1950, como saias longas, luvas e chapéus. Também cortou o cabelo, começou a
usar maquiagem, trabalhou a postura, começou a usar cinta e, por um mês, todo dia se sentou em uma mesa
diferente na hora do intervalo para conhecer os diversos grupos da escala de
popularidade (cujo ela pertencia à categoria invisível). Com muita honestidade e bom-humor, Maya se surpreende com as lições sobre popularidade que aprende durante o desafio.
Em
abril de 2014, seu diário foi publicado pela editora Penguin. Popular:
Vintage Wisdom for a Modern Geek – traduzido no Brasil pela Globo Livros – a
tornou uma das autoras do ranking de mais vendidos do The New York Times com
apenas quinze anos de idade. Sem falar que durante a experiência acabou conhecendo Betty Cornell.
Li Popular em praticamente um dia e fiquei muito inspirada pelo relato de Maya. Mesmo após os colegas rirem ou criticarem suas roupas e atitudes, ela continuou empenhada no desafio. Algo que gostamos de debater aqui no AD é que você não deve ter vergonha de ser você mesmo e não deve se preocupar com tendências ou etiquetas. E isso é algo bastante explorado na obra. Consegui entrar em contato com a autora, que foi muito simpática e topou responder algumas perguntas!
No livro, você não se sentiu
confortável com a maquiagem e o novo corte de cabelo no começo, mas acabou se
acostumando. Desde o experimento, o que mais mudou no seu estilo e o que não
mudou?
Seguir os conselhos de Betty me ajudou
a encontrar a confiança que eu precisava para o experimento e encontrar o meu
próprio estilo. Eu decidi cortar o meu cabelo curto seis meses atrás. Estou
ensinando a mim mesma a me maquiar, e estou mais confortável experimentando
diferentes tipos de roupa.
Seu livro é bem real e honesto.
Você não só escreveu sobre as consequências de seguir os conselhos do livro da
Betty Cornell, mas também sobre o seu cotidiano em Brownsville (Texas), como
aquela vez em que você e seus colegas precisaram se trancar na sala de aula por
causa do narcotráfico. Houve algo que você deixou de fora do seu livro porque
era muito pessoal?
Na verdade, não. Enquanto o experimento
acontecia, eu transformei meu diário em um lugar para trabalhar as dificuldades
que vivenciei. Às vezes eu ficava um pouco preocupada em colocar esse tipo de
vulnerabilidade para tantas pessoas verem, mas a resposta às seções mais
pessoais têm sido incrivelmente calorosa e positiva. Eu fico contente por
tê-las mantido no livro.
Você decidiu seguir as dicas do livro
de Betty pelo que você achava que seria o menos desafiador para o mais
desafiador. Mas, na prática, qual foi a coisa mais difícil que você teve de
fazer?
Eu acho que tudo tem a ver com a
Atitude Popular (superando a timidez, me aproximando de outras pessoas). Foi o
mais difícil para mim, porque envolvia tanto uma mudança interior como um
esforço exterior. Mas isso foi durante o tópico em que aprendi muito mais sobre
as pessoas, ganhei mais confiança e vi a maior transformação em mim mesma.
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| Maya para a revista Seventeen |
Você mudou o nome dos seus amigos,
colegas e professores no livro ou deixou seus nomes reais? Qual foi a impressão
deles ao descobrir sobre o livro?
Todos os nomes das crianças e da
maior parte dos adultos foram mudados, exceto nos casos em que eu explicitamente
tive a permissão. Em geral, a reação ao livro tem sido incrivelmente
positiva. Kenzie (sua melhor amiga) tem me apoiado bastante, assim como muitos
dos professores. Tem sido assustador e emocionante compartilhar o livro com
eles.
“O mais básico
de todos os fundamentos básicos é ser amável com as pessoas. Não é possível se
divertir sozinha. É necessário compartilhar o prazer para que você possa
desfrutar de fato essa sensação. Isso significa ter amigos” — O Guia de Popularidade para Adolescentes, Betty Cornell
Muitas pessoas ficaram surpresas
com as suas novas roupas e acessórios e a julgaram por causa disso. O que não a
fez desistir da experiência?
Definitivamente houve dias em que
pensei que não poderia fazer aquilo. Às vezes era porque o conselho parecia
muito difícil de seguir (como ir ao baile ou conhecer pessoas novas). Outras
vezes eram os dias muito ruins que dificultaram que eu continuasse, quando os
conselhos não funcionavam como eu esperava. Esses eram os momentos em que eu
mais duvidei se deveria continuar. Mas escrever essas experiências me ajudou a
trabalhar através disso e ver a mim mesma como a protagonista da minha
história. Quando eu olhava tudo dessa maneira, eu sabia que não poderia
desistir.
Eu li que seu livro conseguiu um
contrato para um filme da Dreamworks. Isso é incrível! Alguma
novidade sobre isso?
Eu não posso compartilhar muitos
detalhes, mas posso dizer que agora mesmo estão trabalhando no roteiro. É
tudo muito emocionante!
Muitas coisas aconteceram graças a sua
experiência. De todas as coisas incríveis acontecendo na sua vida, o que mais
te deixou animada?
Eu amo festivais de livros. Sentar em
painéis, curtir os bastidores, conversar com autores gentis e bondosos, e
conhecer leitores incríveis em um final de semana são o melhor tipo de
inspiração que existe. Eu encorajo os adolescentes a irem atrás do que amam e
não se preocuparem com a idade, porque a recompensa de falar sobre coisas que
são importantes para eles enquanto expandem seu próprio conhecimento é
inacreditável!
“Aprendi que
um monte de gente tem medo de dar o primeiro passo numa conversa. Muitas delas
estão simplesmente esperando que você fale antes. E muitas delas possuem
histórias e personalidades maravilhosas" — Popular, Maya Van Wagenen
De todas as lições que aprendeu
durante o experimento, qual foi a mais supreendente?
Muito frequentemente em livros e séries
de TV, popularidade é mostrada como algo baseada no bullying,
pressão dos amigos, exclusão e botar os outros para baixo. Esse não é o tipo de
popularidade que eu descobri a partir do livro da Betty Cornell. Pelo
contrário, a definição dela foi baseada em colocar o seu melhor eu adiante, ser
corajoso e amável, abrir o seu círculo de amigos para aqueles que mais precisam
desse apoio. Esta completamente inesperada lição tem impactado o modo como vivo
minha vida e como interajo com as pessoas.
Você tem leitores brasileiros e
tenho certeza de que não somos os únicos estrangeiros lendo o seu livro. Você
imaginava que tantas pessoas de todos esses lugares no mundo leriam e se
identificariam com o seu diário?
Eu sempre esperei que meu experimento
se tornasse algo algum dia, mesmo que fosse apenas uma dissertação para o
processo de admissão da faculdade. Mas nunca poderia ter previsto como tudo
aconteceu. Eu me sinto incrivelmente sortuda por ter essa oportunidade de
compartilhar a minha história com tantas pessoas. As edições estrangeiras são
deslumbrantes e as pessoas com quem elas me conectaram enriqueceram a minha
visão de mundo.
A dica final da Maya é que popularidade é mais do que parece. Não tem nada a ver com roupas, cabelo ou até
mesmo dinheiro. “Quando a gente abandona esses rótulos, vemos os quão
insignificantes e relativos eles realmente são. A verdadeira popularidade está
na gentileza e aceitação. Tem a ver com saber quem você é e como você trata os
outros”
Espero que tenham se interessado pelo livro, que você pode encontrar aqui. :)
Beijos,
Bela